Sabe aquele tipo de coisa que só acontece com a gente? Pois bem. No meu caso, de tempos em tempos, estabelecem-se ciclos. Já passei por fases férteis de gafes lingüísticas, gastronômicas (esta, assunto para uma tarde toda), esportivas e outras mais. A atual envolve banheiros e já me rendeu bons causos. Um deles, ocorrido há poucos dias, causou-me especial constrangimento.
Moro em Campinas, onde curso o ensino superior. Divido a casa com outros estudantes, que se utilizam da mesma cozinha e da mesma sala de estar. Os banheiros, contudo, estão especificados em duas categorias: um para os da frente, um para os do fundo da casa. Sempre foi assim e a tendência é continuar da mesma forma. Esta é, aliás, uma receita que dá certo. Ou melhor, que dava, até que cheguei. Logo em meu primeiro dia na casa nova, deu-se o início da fase de que falei a pouco. Já passava das seis da tarde e, num ímpeto que interrompeu a leitura de um Hobsbawn, dirigi-me até o banheiro a que fora designado. Estava empanturrado de miojo e podia sentir que seria trabalho duro.
Depois de poucos instantes de concentração, tudo fluiu bem. Segui com os procedimentos-padrão, que culminariam num leve sopro da brisa do lado de fora daquelas quatro paredes ladrilhadas em meu rosto. Ia tranquilo, mas faltou algo no meio do caminho. Não ouvira um barulhinho; um barulhinho familiar e esperado. O barulhinho da descarga, que simplesmente não cooperava. Pronto: meu primeiro contato com os veteranos de casa seria para dizer que o banheiro de metade deles estava interditado por insalubridade. Até aí, já é possível imaginar-me encolhendo de vergonha. Mas tudo bem, poderia ser pior.
E foi. Depois do constrangimento sanitário, resolvido magistralmente pelo dono da casa, as coisas voltaram ao normal. As pessoas iam e voltavam no banheiro com toda a liberdade que a Constituição lhes permite e sem nenhum nojo aparente. Resolvi, portanto, tomar um rápido banho antes do jantar. Peguei minha toalha e segui rumo. Ensaboava-me sem nenhuma preocupação. Estava à vontade, quase zen, quando um estrondo tomou minha atenção. Era o chuveiro, que pendia sobre minha cabeça recém depenada de calouro. Antes que pudesse reagir, este despencou de vez, não indo ao chão por uma reles mangueirinha que, mesmo retorcida, aguentou o peso do artefato.
Apavorado, ensaboado e enrolado numa toalha azul claro toda manchada de vermelho – resultado da tinta levada nos trotes da primeira semana de aula, que mais parecia resquício de fortíssima menstruação. Foi assim que Maria, que cuida dos afazeres domésticos da casa, me viu pela primeira vez. “Venha cá, Maria. Veja só o que aconteceu. Quase caiu em cima de mim!” Atendendo a meu chamado, apresentou-se à porta do banheiro.
Ela olhou para mim, tentando assimilar a situação. Eu olhei para ela, com as bochechas mais rubras que não vi. Fui estalando os chinelos até o outro banheiro e terminei o serviço. Segui para o campus e, quando cheguei em casa depois da aula, não a encontrei. Agora, só no dia seguinte. Se ela voltasse.
PS: Calma…tem mais.