11/06/2009

Filé minhôn

Tudo bem. Já aprendi a lidar com isso e com suas conseqüências. Já tentei conscientizar as pessoas de que ninguém tem culpa, de que isso acontece e não há nada que se possa fazer.  Já estou maduro o suficiente para encarar a realidade e sua inexorável crueza.  Sei que é mentira, mas minha mãe insiste em dizer que sou bonito.

Alguns dizem que é que baixa auto-estima. Outros atestam falsa modéstia. A verdade, vos digo, é uma só: quem é feio sabe que é feio. Não adianta encher-se de penduricalhos, entupir-se de cosméticos ou coisa do gênero. O máximo que conseguiria é uma bela crise existencial. O melhor a fazer é assimilar a situação o mais rápido possível e, a partir daí, trabalhar outras potenciais qualidades – raciocínio lógico, dom artístico, lamber o próprio cotovelo, etc.

Até aí, nada demais. Esquenta a partir do momento em que todos ao redor tomam nossas dores. Se há uma frustração maior na vida, é a de ser feio. Afinal, ninguém tem cabelo encarapinhado, pele gordurosa, corcunda, estrabismo ou bafo porque quer. Dói saber que isso incomoda outras pessoas – como se acordar dia após dia e deparar-se com isso ante o espelho não fosse suficientemente traumático.

Encerro meu desabafo com a representção gráfica do ápice deste verdadeiro calvário que é ser esteticamente desfavorecido, o eufemismo-mor:

O que achou dele?

Ah…simpático.

ps: calma, feio.

18/05/2009

Anne e o Brasil

OBS: Não me aposentei. Fui afastado.

Numa das corriqueiras festas universitárias de Barão Geraldo conheci Anne. Francesinha, digna de muitos outros diminutivos adoráveis, foi posta em meu caminho por acaso. Fomo-nos apresentados por um amigo em comum, em meio a música, ao falatório animado da gente e ao verde.

Seu sotaque entortava alguns fonemas e conferia a seu português leve toque croassônico (desculpe-me, Oswald). Delicada, fazia questão de falar corretamente, mesmo que para isso fosse necessário pedir ajuda numa ou noutra conjugação de verbo, o que descontraiu naturalmente os humores logo de cara.

Conversávamos sem qualquer pé atrás. Os assuntos rumavam em direção ao Brasil, numa profundidade maior que os cartões postais do Rio de Janeiro, meia dúzia de canções, o carnaval e o futebol. Perguntei sobre o que estava achando do que encontrara por aqui, sobre com o que de mais diferente da França deparava-se todo dia. Disse-me  “gosto mais da cultura daqui, é tão mais rica”. Frase, no mínimo interessante. Ainda mais por vir de alguém vindo de onde veio. A partir daí a coisa se desenrolou de modo diferente. Sem querer,  praticamente palestrei sobre a colônia, a miscigenação, a música, expus devaneios…

Fiquei com medo de estar sendo chato, falando demais – até porque estávamos numa festa e discutir as raízes do Brasil não costuma ser o objetivo de quem vai a uma. Mas não senti nada disso em Anne. Seus olhos mudaram de azul, demonstravam interesse, senão no assunto, em alguma coisa em minha cara – uma mancha, ramela ou coisa assim.

O fato é que, retomando lembranças, acho poucas pessoas com cabeça aberta suficiente para o tipo de conversa que tivemos. Se estivesse no intervalo das aulas e aparecesse com um tema desses provavelmente levaria uma pedrada dos amiguinhos. A professora de história do primário diria que é tudo mentira. O padre faria cara feia e perguntaria porque ando faltando à missa. Os outros por aí precisam de seus salários e não tem tempo para nada.

Anne, contudo, me ouviu.

01/05/2009

Conversa de elevador II

- Rapaz, você viu aquilo?

- Como não? Que coisa linda!

- Essa eu levava pra casa fácil, fácil.

- Ai, ai, ai…

- É. Mas é demais pra gente.

- Será mesmo?

- Se enxergue, rapaz! Aquela lá só com grana alta, casão…

- Não sei, hein. Acho que eu daria conta, mesmo com meu apartamentozinho e com o troco que eu ganho.

- Ah, coitado…

- Falou “o cara”!

- Sério, não é pra gente não.

- Que exagero!

- Confie em mim: é uma parasita.

- Mas que preço têm o carinho e o afeto que se recebe em troca?

- Não sei te dizer, mas é alto.

- Não pode ser tanto assim.

- Talvez. Mas dá trabalho.

- De que tipo?

- Levar pra cima e pra baixo, gastos…

- Mas isso é o de menos.

- O segredo mostrar quem manda.

- Como assim?

- É, ué. Afinal de contas, você é o dono.

- Tudo bem, mas nada de bater.

- Eu não tô nem aí. Se vier com graça, desço-lhe o cassete.

- O que que é isso!?

- É claro!

- Mas assim, do nada?

- É claro que não, tem que ter um pouquinho de paciência.

- Ah, bom.

- Eu disse um pouquinho. Não pode dar mole, não. Se precisar, sento a ripa sem dó.

- Credo. Você não serve pra isso mesmo.

- Por que não?

- “Tolerante” desse jeito?

- Ser tolerante é uma coisa, mas b*****  no tapete da sala já demais!

21/04/2009

Arroz e feijão

11/04/2009

Prozac

“Boa noite. Vocês tem serviço de entrega?

Não, moço. Só delivery.”

06/04/2009

Mero detalhe

Da multidão estupefata não se ouvia um pio. Ver, eu via, mas não podia acreditar. Era inconcebível. O menino engolira duas bolas de bilhar, mas não era o bastante.  Queria a glória. Queria mais. Seu objetivo: engolir o taco e encaçapar a primeira delas, vermelha - estava longe e não souberam me dizer se era a 3 ou a 11 – com a branca. Onde, prefiri não especular.

Ao anunciar o que pretendia, o pequenino recebeu toda sorte de vibrações. Alguns intercediam em favor da razão, aconselhavam-no a desistir e ofereciam-se para levá-lo ao pronto-socorro mais próximo para, no mínimo, retirarem-lhe as bolas (sim, ambiguidade, meu caro). Outros incentivavam-no. “Eu duvido”, “essa eu quero ver”, “engole que eu te dou deilão”, era o que gritavam os entusiastas do surto megalomaníanco daquele minishowman maltrapilho.  Ninguém ousava tocar o menino. Se fora capaz de engolir duas bolas de bilhar, sem nem um copinho d’água, podia qualquer coisa. Puxou com uma das mãos o taco e meteu-no guela abaixo.

Aos primeiros dez centímetros, tudo corria bem. Os transeuntes paravam boquiabertos. Os camelôs aproveitavam a brecha para o devido merchandising, ao melhor estilo Aldir Blanc. Celulares registravam aquele momento ímpar. Até aí, era tudo de se esperar – não que já tenha visto muitas vezes. Foi quando, um figura (subs. masc.: sujeito, no mínimo exótico, que habita praças mundo afora. Varia entre as categorias ”bebum”, “indigente” e “desocupado”), trôpego como de costume, surgiu do nada e empurrou o menino durante a tacocitose. A extremidade mais grossa bateu na mureta do chafariz e, com o peso do corpo, ganhou, no mínimo, o esôfago do garotinho.

Foi o limite. Logo jogaram seu corpo franzino no banco de trás de algum carro e levaram-no às pressas para o hospital. Lá chegando, foi rapidamente posto numa maca em direção à sala de cirurgia. Do lado de fora, aglomeraram-se em instantes fãs e curiosos, que berravam por notícias a cada minuto. Ele conseguira, de um jeito ou de outro, a tão esperada glória. Cartazes e faixas de apoio eram vistos do outro lado da rua. A equipe médica fazia o que podia e, depois de horas de trabalho duro e delicado, deram a boa nova: o menino vivia e passava bem.

Quando perguntado por repórteres, na saída do hospital, sobre suas razões, o pequenino não deu muitos detalhes. Nem precisava. Queriam mais saber de sua saúde, levá-lo a algum programa de TV, pagar-lhe um sanduíche. Não estava nem aí. Todos o amavam, e isso bastava. 

“Já sei porque não deu certo”. “Não foi o bêbado”, perguntou alguém surpreso. “Isso ajudou, mas é que” – todos os microfones, câmeras e afins miravam suas palavras. “Faltou giz”. Foi tudo o que disse antes de sumir no mundo.

28/03/2009

(ponta do)Pé na cozinha

“Jamais se aninhou em mim qualquer preconceito de raça. Cresci, e me fiz homem, amando os meus semelhantes, tratando com especial deferência e carinho os pretos, mulatos, os mais humildes. Pensava, assim, resgatar a injustiça da escravidão a que foram submetidos. Como já disse antes, minha família foi entusiasta da Abolição. E quanto ao aspecto concreto e visual da questão: poderá parecer que minha resposta a este item contradiz a dada ao anterior. Mas não há tal: fui sincero, como serei ao responder o último. Falo a um sociólogo, a um fino psicólogo e estou certo, ele me compreenderá. Não veria com agrado, confesso, o casamento de um filho ou filha, irmão ou irmã, com pessoa de cor. Há em mim, forças ancestrais invencíveis que justificam essa atitude. São elas, percebo, mais instintivas do que racionais, como, em geral, soem ser aquelas forças sedimentadas, há séculos, no subconsciente de sucessivas gerações.”

Depoimento de Luiz de Toledo Piza Sobrinho, nascido em 1888, respondendo a enquente realizada por Gilberto Freyre para o livro “Ordem e progresso”

(de “Tia Ciata e a pequena África do Rio de Janeiro”,  Roberto Moura, 1983)

15/03/2009

Venha cá, Maria

Sabe aquele tipo de coisa que só acontece com a gente? Pois bem. No meu caso, de tempos em tempos, estabelecem-se ciclos. Já passei por fases férteis de gafes lingüísticas, gastronômicas (esta, assunto para uma tarde toda), esportivas e outras mais. A atual envolve banheiros e já me rendeu bons causos. Um deles, ocorrido há poucos dias, causou-me especial constrangimento.

Moro em Campinas, onde curso o ensino superior. Divido a casa com outros estudantes, que se utilizam da mesma cozinha e da mesma sala de estar. Os banheiros, contudo,  estão especificados em duas categorias: um para os da frente, um para os do fundo da casa. Sempre foi assim e a tendência é continuar da mesma forma. Esta é, aliás, uma receita que dá certo. Ou melhor, que dava, até que cheguei. Logo em meu primeiro dia na casa nova, deu-se o início da fase de que falei a pouco.  Já passava das seis da tarde  e, num ímpeto que interrompeu a leitura de um Hobsbawn, dirigi-me até o banheiro a que  fora designado. Estava empanturrado de miojo e podia sentir que seria trabalho duro.

Depois de poucos instantes de concentração, tudo fluiu bem. Segui com os procedimentos-padrão, que culminariam num leve sopro da brisa do lado de fora daquelas quatro paredes ladrilhadas em meu rosto. Ia tranquilo, mas faltou algo no meio do caminho. Não ouvira um barulhinho; um barulhinho familiar e esperado. O barulhinho da descarga, que simplesmente não cooperava. Pronto: meu primeiro contato com os veteranos de casa seria para dizer que o banheiro de metade deles estava interditado por insalubridade. Até aí, já é possível imaginar-me encolhendo de vergonha. Mas tudo bem, poderia ser pior.

E foi. Depois do constrangimento sanitário, resolvido magistralmente pelo dono da casa, as coisas voltaram ao normal. As pessoas iam e voltavam no banheiro com toda a liberdade que a Constituição lhes permite e sem nenhum nojo aparente. Resolvi, portanto, tomar um rápido banho antes do jantar. Peguei minha toalha e segui rumo. Ensaboava-me sem nenhuma preocupação. Estava à vontade, quase zen, quando um estrondo tomou minha atenção. Era o chuveiro, que pendia sobre minha cabeça recém depenada de calouro. Antes que pudesse reagir, este despencou de vez, não indo ao chão por uma reles mangueirinha que, mesmo retorcida, aguentou o peso do artefato.

Apavorado, ensaboado e enrolado numa toalha azul claro toda manchada de vermelho – resultado da tinta levada nos trotes da primeira semana de aula, que mais parecia resquício de fortíssima menstruação. Foi assim que Maria, que cuida dos afazeres domésticos da casa, me viu pela primeira vez. “Venha cá, Maria. Veja só o que aconteceu. Quase caiu em cima de mim!” Atendendo a meu chamado, apresentou-se à porta do banheiro.

Ela olhou para mim, tentando assimilar a situação. Eu olhei para ela, com as bochechas mais rubras que não vi. Fui estalando os chinelos até o outro banheiro e terminei o serviço. Segui para o campus e, quando cheguei em casa depois da aula, não a encontrei. Agora, só no dia seguinte. Se ela voltasse.

PS: Calma…tem mais.

03/03/2009

Conversa de elevador I

Nesta série de posts, procurarei retratar com máxima precisão possível alguns dos fragmentos de diálogo que me causaram as mais variadas sensações durante minhas idas e vindas verticais.

- Ai, que agonia, seu Jessé!

- Calma, dona Flora. Calma!

- E eu vi tudo!

- Tudinho?

- De cabo a rabo.

- E como foi?

- Coitadinha…

- Sofreu muito?

- Nossa…gritava, esperneava.

- Meu deus! E não tiveram dó?

- Que nada! Ela resistiu, mas não adiantou.

- Tinha mais gente lá?

- Tava lotado.

- Nem a levaram pra outro canto?

- Não. Foi lá mesmo, na frente de todos.

- Vixe Maria! Pelo menos foi rápido e indolor.

- Ainda bem. Coisas da vida, né?

- Pois é. E a mãe?

- Tava com ela no colo depois. Não sabia o que fazer. Que situação!

- É verdade.

- Na nossa época não tinha nada disso.

- Nem me fale!

- Como os tempo mudaram…

- É. Mas foi melhor assim.

- Ah, sim. É bom acabar com isso no começo, né?

- É claro! Menos problema pra todo mundo.

- É. Só não deve ter sido muito bom pra ela.

- Mas foi por uma boa causa.  E outra: algumas gotinhas não matam ninguém!

26/02/2009

Palpite ranfastídeo

Vi, há alguns dias, mais uma daquelas coisas que nos obriga a pensar mais duas vezes antes de botar fé na imprensa. Numa das últimas edições da revista Veja – folhada por força do tédio – consta, em destaque, uma citação do governador do estado de São Paulo. “A Apeoesp faz o possível para atrapalhar o ensino” disse publicamente José Serra. Logo abaixo, vinham as seguintes palavras, contextualizando a frase “comentando a liminar concedida ao sindicato dos professores autorizando 1 500 docentes que tiraram nota zero em avaliação a lecionar neste ano”. Tendo em mente que “contra fatos não há argumentos” (Nietzsche), mas interpretações, analisemos a perspectiva que a revista – propositadamente ou não – dá ao leitor.

O processo de atribuição de aulas no sistema público de ensino é baseado em tempo de serviço e títulos. Ou seja, quanto mais tempo o professor trabalhar na mesma escola e/ou mais alta for sua graduação,  melhor sua posição no “ranking”. Com a intenção de “melhorar a qualidade”, o governo do estado decidiu avaliar os professores temporários (que não passaram em concurso público) com 20 questões alternativas abordando pedagogia, didática e outros temas afins. Seu desempenho nesta prova redefiniria o ranking e, conseqüentemente, sua prioridade na atribuição de aulas.

Foi elaborado material específico para que os professores temporários pudessem se praparar para a avaliação. Entretanto, nem todos o receberam com a devida antecedência. Muitos não tiveram tempo suficiente para estudar, já que, para os docentes, o ano letivo começa mais cedo – e caíram drasticamente no ranking. Outros, com mais tempo livre – e, não necessariamente, mais conhecimento ou experiência – saíram-se melhor e galgaram significativas posições. É claro que entre os 214 000 avaliados alguém haveria de zerar. Mas, dadas as circunstâncias em que se sucedeu, a avaliação não foi vista com bons olhos pela classe. A Apeoesp (Associação dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) entrou com recurso legal para que os resultados do exame não pudessem ser levados em consideração no processo de atribuição de aulas e conseguiu. As coisas continuam como antes.

Tendo agora um panorama da situação, atenhamo-nos ao que a Veja publicou na edição 2100 e reflitamos sobre algumas questões simples:

Que impressão se tem da educação pública ao saber que 1 500 professores temporários zeraram na avalição?

Que impressão se tem da Apeoesp ao saber que, mesmo diante de 1 500 zeros, recorreu à justiça?

Que impressão se tem da Justiça ao saber que concedeu àqueles 1 500 que zeraram o direito de lecionar?

Como se vê, é questão de perspectiva.