O amor não precisa de muito.
Disso eu sei.
Chamava-se Orlando. Não tinha pernas, braços ou tronco. Afora isso, era um menino normal, como todos os outros do colégio de padres.
Dividia o quarto com outros dois. Um, Beto, roncava deliberadamente debaixo do cobertor xadrez. O outro, João – Batista para os padres, Buiu, para os internos – saíra cedinho para ajudar na arrumação da capela. Sua cama era uma cesta de vime forrada com retalhos de tecido mantida sobre a escrivaninha que ficava de frente para a janela, da qual era possível ver o portão do colégio, algumas árvores e a quadra onde, toda sexta-feira à tarde, jogava-se futebol.
Assistia à vida ao som do vento. Este mexia nas folhas das arvorezinhas; tocava suas pontas, fazia com que valsassem todas em comunhão.Passarinhos passeavam pelo pátio. Pareciam procurar, perdidos, pedacinhos de pão, como na praça da matriz. Dia calmo. Lento, vagaroso, quase inerte; arrastava-se molemente naquele pedaço de chão esquecido por todos – menos por deus e pela CPFL. Preferia pensar que tivera sorte. Nunca se ouvira falar em outro caso o como o seu. Ainda menos num internato como aquele. Não tinha de que reclamar, a não ser pelo fato de que sua maior vocação era a de peso de papel. Não andava. Não falava. Não tinha mãos. Mas gabava-se: segundo o Padre Antônio, selo mais bem lambido não havia.
Tédio não era problema.
Cheguei à faculdade para uma aula teórica – contraponto, harmonia barroca, etc. Subi as escadas, virei no corredor à esquerda mas parei na porta. Dei uns dois passos para trás e lá, naquela salinha, um senhor de óculos, mãos no queixo, falando para a atenta platéia, composta por outros estudantes do instituto. Um grupo de jovens intrumentistas estava a postos, como que aguardando instruções. Ao dirigir-se a um deles, o senhor sugeriu um tema de jazz. Supus, por conta do sotaque, que fosse estrangeiro. Era Phil DeGreg, pianista e professor da Universidade de Cincinatti, EUA. Trouxera consigo alguns alunos, banda completa: piano, contrabaixo, bateria, trombone e saxofones. Alguns estudantes brasileiros juntaram-se ao grupo durante o workshop, para tocar temas de jazz e de música brasileira – a que eles conhecem, a bossa nova. Todos, de modo geral, demonstraram domínio do instrumento. Execução limpa, bons timbres, leitura. A escolha de repertório, tanto pela parte gringa, quanto pela tupiniquim, foi coesa. O que me decepcionou foi ver, mais uma vez, que o brasileiro ainda é quadrúpede.
A improvisação no jazz funciona de um modo bastante simples. É tocado o tema, melodia principal, previamente escrita, e, a partir da forma (idas e vindas das partes do tema), os músicos revezam-se em seus solos. Quem toca um chorus, improvisa sobre toda a progressão de acordes que acompanha a melodia, do início ao fim, até que um outro músico tome seu posto no início do próximo chorus, ou seja, quando a primeira parte do tema começa de novo. Um a um, os estudantes tocavam seus respectivos chorus. Pude notar que os norte-americanos recebiam palmas bastante entusiasmadas. Até demais para o meu gosto. Era perceptível a diferença entre a reação dos presentes ante o improviso de um dos visitantes e de um dos nossos colegas de classe, o que não me surpreenderia se houvesse desnível entre os dois. Seria justo. E só para constar: o melhor improvisador presente aprendeu as primeiras notas numa fanfarra do interior paulista.
Ocorre que tanto nós quanto eles comparecemos dignamente quando convocados. E isso não é de hoje. O músico brasileiro não deve nada a nenhum outro. Diria até que, por conta de grande mistura de raças e culturas a que é exposto por natureza, pode considerar-se em ligeira vantagem. Ninguém tem música como temos. Nosso infeliz histórico de tronco e chibata continua presente nessas pequenas coisas. Por aqui, tudo se avacalha.
Depois que o grão-mestre da maçonaria foi o imperador, não duvido de mais nada.
Irene no céu
Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.
Manuel Bandeira (de “Libertinagem”,1930)
Meus caros,
aprendi pequenininho que gente grande, quando manda carta, põe o local de onde a envia e a data no começo, além do nome do destinatário em destaque, seguido de vírgula e com uma linha só para ele. Achei o máximo e não hesitei em fazer com que meia lista telefônica soubesse disso. Ninguém teve a pachorra de me responder – nada que abalasse meu gosto pela coisa. Remeti severas reclamações ao “Ilmo. Sr. Noel” por conta da cor ridícula da bola que minha mãe havia comprado com tanta boa vontade, por ter ganho – pela enésima vez – meias daquelas tias boazinhas que fazem sempre questão de enfatizar que estou mais gordo e por outras questões tão relevantes quanto para um menino de cinco anos. E só para constar: nunca deu certo.
O fato é que sempre me pareceu muito íntimo escrever - não digitar. O papel levemente amassado, o traço do remetente, a ânsia de abrir o envelope, de saber o que se esconde por entre as linhas, entre outras minúscias, são insubstituíveis – quando a intenção é mostrar mais que apenas caracteres a carta é hour concours.
Que não percamos nada disso, pelo bem de nossos filhos e de suas retinas, já fadadas ao LCD.
“Candeeiro Encantado”, do show “In Cité“, com Yusa ao contrabaixo e Ramiro Mussoto à percussão.