Chamava-se Orlando. Não tinha pernas, braços ou tronco. Afora isso, era um menino normal, como todos os outros do colégio de padres.
Dividia o quarto com outros dois. Um, Beto, roncava deliberadamente debaixo do cobertor xadrez. O outro, João – Batista para os padres, Buiu, para os internos – saíra cedinho para ajudar na arrumação da capela. Sua cama era uma cesta de vime forrada com retalhos de tecido mantida sobre a escrivaninha que ficava de frente para a janela, da qual era possível ver o portão do colégio, algumas árvores e a quadra onde, toda sexta-feira à tarde, jogava-se futebol.
Assistia à vida ao som do vento. Este mexia nas folhas das arvorezinhas; tocava suas pontas, fazia com que valsassem todas em comunhão.Passarinhos passeavam pelo pátio. Pareciam procurar, perdidos, pedacinhos de pão, como na praça da matriz. Dia calmo. Lento, vagaroso, quase inerte; arrastava-se molemente naquele pedaço de chão esquecido por todos – menos por deus e pela CPFL. Preferia pensar que tivera sorte. Nunca se ouvira falar em outro caso o como o seu. Ainda menos num internato como aquele. Não tinha de que reclamar, a não ser pelo fato de que sua maior vocação era a de peso de papel. Não andava. Não falava. Não tinha mãos. Mas gabava-se: segundo o Padre Antônio, selo mais bem lambido não havia.
Tédio não era problema.

